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A história do wahhabismo: do deserto de Néjede ao Reino da Arábia Saudita

Abdulaziz Al-Saud, primeiro rei da Arábia Saudita e consolidador do wahhabismo como crença do Estado

Abdulaziz Al-Saud, primeiro rei da Arábia Saudita e consolidador do wahhabismo como crença do Estado

O wahhabismo é um movimento religioso sunita associado com os ensinamentos de Muhammad ibn Abd al-Wahhab (1703 – 1792). Os seus adeptos, contudo, se autoproclamam salafis, isto é, aqueles que seguem o caminho da primeira geração de muçulmanos (salaf). A estruturação desta reforma está intimamente associada com a história da Arábia Saudita e com o seu expansionismo. Ademais, também é possível remeter grande parte do fundamentalismo islâmico atual à cosmovisão wahhabita. A nova leitura dado ao Corão e aos Ahadith (ditos do Profeta Muhammad) permitiu uma radical transformação em pontos fundamentais do islamismo e possibilitou, pela primeira vez, a desagregação da comunidade sunita.

A “mística” wahhabita está completamente associada ao combate à idolatria (shirk). No islamismo de então era comum encontrar veneração aos santos e outras manifestações de piedade, como a visitação de mausoléus, peregrinações a lugares sagrados etc. Hoje estes costumes sobrevivem apenas entre os adeptos do sufismo e no islã xiita. Em grande medida o fim destes atos de devoção é reflexo do fortalecimento do discurso reformista em todo o mundo islâmico. Para Abd al-Wahhab a identidade muçulmana do fiel não estava pautada na profissão de fé (shahada), mas sim na correta manifestação da sua adoração, como a expressão da crença no Deus Único. Para o reformador árabe, a verdadeira crença subsistia apenas entre aqueles que combatiam a idolatria. Consequentemente, grande parte da comunidade islâmica era vista pelo wahhabismo como apóstata necessitada de purificação.

As origens espirituais do wahhabismo se encontram nos ensinamentos de Ibn Taymiyyah (1263 – 1328), pensador de origem turca e que se tornou um célebre pregador na Síria. Ulemá da Escola Hanbali1, atingiu a estatura religiosa de “Mujtahid”, ou seja, clérigo capaz de gerar um veredito independente a respeito de aspectos da jurisprudência islâmica. Na busca pela renovação do islamismo, Ibn Taymiyyah se levantou contra a visita de túmulos e a veneração dos santos. Ainda considerando estas práticas idolátricas, dizia-se incapaz de conhecer a validade das intenções dos muçulmanos, portanto impossibilitado de julgar a credulidade individual. Contudo, o mesmo equilíbrio não foi utilizado no trato dado aos xiitas e aos sufis, que se tornaram desde então inimigos clássicos do que considerava a ortodoxia islâmica. Na busca por determinar o que era o islamismo “puro”, Ibn Taymiyyah passou a referir aos seus seguidores como “salafis”, em referência aos companheiros do Profeta Muhammad. Com o sistemático distanciamento do pensamento ordinário Hanbali, o salafismo se tornou numa subcorrente dentro desta escola de jurisprudência.

Ainda que Muhammad ibn Abd al-Wahhab, séculos depois, tenha se tornado no aclamado ulemá do wahhabismo, ele vinha de uma remota localidade onde a tradição intelectual era profundamente rasa. O Néjede, região central da península arábica, durante séculos viveu isolado politicamente, desde o fim do Califado Abássida. Os Otomanos, que controlavam o Oriente Médio, não tinham razões para invadi-lo e subjugá-lo. Não tinha importância econômica e não possuía uma posição estratégica. Religiosamente o Néjede era diverso, com diversas escolas sunitas de jurisprudência e tendo alguma influência xiita, devido aos peregrinos vindos do Iraque, do Irã e do Bahrein que inevitavelmente passavam pela região.

As idéias do Sheikh Muhammad, ao que tudo indica, surgiram quando de sua viagem para Bassora, em 1730. A cidade no sul do atual Iraque vivia sob constante tensão devido ao atrito entre Otomanos e Persas, com o risco iminente de invasão. Como uma região de maioria xiita, provavelmente Abd al-Wahhab se impactou com a veneração dos seus fiéis aos imames. Em Bassora iniciou a sua pregação contra as inovações (bid’a) e contra os cultos corrompidos ao Deus Único.  Também foi neste período que Sheikh Muhammad teria recebido a iluminação divina que possibilitou o conhecimento mais profundo da unicidade, condensado no seu livro “Kitab Al-Tawhid”. Ainda sendo perceptível um discurso próximo ao ensinado por Ibn Taymiyyah, o reformador árabe realiza uma mudança radical de perspectiva.

O modo obscuro com o qual Sheikh Muhammad interpretava alguns ahadith e passagens corânicas endossou as bases da sua reforma. O Profeta Muhammad, numa tradição transmitida oralmente, disse: “Quem quer que afirme que não há deus além de Deus e renega todos os outros objetos de culto, salvaguarda o seu sangue, a sua propriedade e a sua fé em Deus”. Para  al-Wahhab este dito era um aclaramento a respeito da imperfeição da profissão de fé nominal. Apenas a renegação daquilo que considerava idolatria poderia conceder ao fiel muçulmano a sua pertença à comunidade e, portanto, a sua proteção legal. O problema oriundo desta leitura era que os crentes, em sua maioria, buscavam a intercessão de homens santos e construíam santuários sobre os seus túmulos. Com isto toda a península arábica estava enquadrada como apóstata. Este contexto fortaleceu ainda mais a imagem de Sheikh Muhammad como o novo opositor à ignorância religiosa (jahiliyya) na região, depois do Profeta do Islã. Os paralelos criados entre a história de al-Wahhab e Maomé, pelos adeptos do wahhabismo, foram inúmeros.

Sheikh Muhammad necessitava de suporte político para difundir as suas novas idéias, contudo, sequer encontrava apoio na própria família. Seu pai não endossava os seus ensinamentos e o seu irmão se tornou no seu maior crítico. Após um breve período de aliança com um chefe tribal, onde pode colocar em prática os métodos wahhabitas – destruiu a tumba de Zayd ibn al Khattab, companheiro do Profeta, e permitiu o apedrejamento de uma mulher – al-Wahhab partiu depois de ser derrotado pelos ulemás que o combatiam duramente. Em 1744 ele conhece al-Dir’iyya (atualmente na periferia de Ryad), um oásis governado pelo clã conhecido como Al-Muqrin, mas que depois se tornou famoso como Al-Saud.  O ardor missionário de Sheikh Muhammad contagiou os governantes, mas especialmente o seu ensinamento que tornava lícita a guerra santa contra muçulmanos. Muhammad ibn Saud se apresentou como a força para combater a descrença e a idolatria. A aliança Saud-Wahhab possibilitou que pela primeira vez desde o surgimento do Profeta Muhammad grande parte da península arábica se unificasse sob uma mesma interpretação do islã.

Para o Sheikh Muhammad a comunidade islâmica viveu seis séculos na ignorância da unicidade de Deus e na degeneração da revelação transmitida pelo Profeta do Islã. De certa forma o wahhabismo adotava o mesmo discurso do protestantismo quando do seu surgimento no séc. XVI. Muitos foram os ulemás que se levantaram contra al-Wahhab, contudo, a forte oposição do seu irmão foi o mais eloquente ataque ao wahhabismo. Sulayman ibn Abd al-Wahhab o acusava de realizar juízos legais de modo independente (ijtihad), o que não mais era permitido no sunismo desde o séc. X. Ademais, transformava infidelidades consideradas pelo consenso islâmico como “idolatria menor” em apostasia. Sheikh Sulayman ainda destacou que por mais que alguém seja acusado de “idolatria maior”, crime passível de morte, deve ser advertido pelos clérigos para que tome conhecimento da própria condição, evitando juízos precipitados sobre aqueles que estão na ignorância. Com a banalização do “takfir” (prática da excomunhão) entre os wahhabitas, e baseado em nenhuma justificativa a não ser as acusações infundadas de idolatria, Sheikh Muhammad divide a comunidade islâmica. Seu irmão, numa afirmação contundente, afirma que o wahhabismo trilha o mesmo caminho extraviado do kharijismo, o primeiro cisma da história muçulmana.

O debate entre os dois irmãos foi silenciado pela conquista saudita do oásis de Huraymila, em 1755, obrigando Sulayman a partir em fuga depois que foi julgado  pelo seu irmão como “inimigo de religião”. Mais tarde seria capturado e enviado para Ryad, onde morreria na prisão. O êxito da expansão saudita despertou a preocupação dos Otomanos, que até então escutavam com pouco interesse as pregações de al-Wahhab. Como parte dos seus ensinamentos, a “jihad” contra os apóstatas da península arábica era uma obrigação religiosa. Desde que os muçulmanos começaram a cultuar os mortos e os objetos sagrados perderam a salvaguarda e se tornaram em incrédulos. Antes de organizar um ataque era enviado um convite à conversão ao islã, o que obviamente era recebido de modo presunçoso pelos habitantes das cidades, que já eram crentes. Com a tomada dos povoados, os prisioneiros deveriam abraçar o islamismo wahhabita. Aqueles que aderiam ao pensamento reformado ficavam livres mediante o pagamento da taxa de proteção (aplicada aos cristãos e aos judeus). Caso recusassem, todos eram mortos e as mulheres escravizadas.

Com o estado saudita atingindo as fronteiras do Império Otomano, Istambul iniciou uma dura batalha contra o wahhabismo, primeiramente no plano religioso, através de ulemás, e posteriormente com as intervenções militares. Depois da tomada das Cidades Sagradas, em 1803, seguida do combate aos maus hábitos estabelecidos pelos turcos, os sauditas conseguiram construir uma boa imagem na comunidade islâmica, ainda que fora da península arábica apenas a corte do Sultão do Marrocos tenha mostrado interesse em suas pregações. Contudo, a destruição de tumbas e mesquitas despertou a revolta em diversos pontos. Nesta mesma época os ensinamentos wahhabitas foram ainda mais radicalizados, com a proibição de viagens aos países incrédulos, ou seja, todos os existentes, e com a afirmação de que aqueles que conviviam com infiéis se tornavam também infiéis. Buscando retomar o controle do Hijaz, uma incursão foi liderada por Muhammad Ali, modernizador da província do Egito e com aspirações dinásticas. Na visão de Sulayman ibn Abdallah, neto de al-Wahhab2, o embate com os Otomanos era a luta dos crentes contra os descrentes, do monoteísmo contra a idolatria. Num ataque encabeçado por Ibrahim Pasha, filho de Muhammad Ali, o líder saudita, Amir Abdallah ibn Saud, rendeu-se no dia 11 de setembro de 1818. Os antigos líderes tribais foram recolocados no poder. A capital, al-Dir’iyya, foi completamente destruída. Os sobreviventes da família Al-Saud e Al ash-Sheikh foram deportados para o Egito.

Aos olhos dos otomanos, dos europeus e dos próprios beduínos árabes, parecia o fim do estado saudita e do movimento wahhabita. Contudo, incapaz de consolidar o poder na região, os egípcios partiram, abrindo o caminho para a restauração. O Segundo Estado Saudita, o Emirado do Néjede, durou apenas três gerações e implodiu depois da divisão interna na Casa Saud e com tomada de Ryad, em 1891, pelo Emirado de Al-Rasheed, uma antiga província. Contudo, a relevância dos Ibn Saud na região era incontestável e algumas décadas mais tarde, em 1902, Abdul Aziz ibn Saud retomaria o controle de Ryad. Em 1921 ele cria o Sultanato do Néjede, em 1925, com a invasão do Hijaz, surge o Reino do Néjede e do Hijaz e em 1932 nasce a Arábia Saudita. O wahhabismo já estava consolidado há mais de um século como a corrente religiosa oficial do deserto e com o advento do reino saudita se estabeleceu no poder, estreitando a relação entre a Casa Saud e a Casa do Sheikh através do casamento de Abdul Aziz com Tarfah bint Abdullah Al Ash-Sheikh, filha de Abd Allah ibn Abd al-Latif Al ash-Sheikh, líder da missão wahhabita em seu tempo. Desta união nasceu Faisal bin Abdulaziz Al Saud, futuro rei saudita. A partir de então os ulemás wahhabitas iniciam o processo de internacionalização dos seus ensinamentos, patrocinados pelos príncipes, e começam a devastação cultural e religiosa na península, destruindo igrejas, sinagogas, mesquitas, tumbas etc. Ademais, neste cenário entra um terceiro e novo fator que se tornará fundamental para o entendimento do wahhabismo moderno: o Ocidente.

Isso será análise de um próximo artigo.

1 – Madhahib são correntes sunitas de interpretação da jurisprudência  (fiqh). Todas surgiram no período de consolidação do pensamento islâmico, fundadas entre o séc. VIII e IX. As quatro grandes escolas são: Hanafi, fundada por Abu Hanifa, Maliki, fundada por Malik ibn Anas, Shafi’i, fundada por Abu Abdullah ash-Shafi’i, e Hambali, fundada por Ahmad ibn Hanbal. Não podem ser consideradas seitas e nem divisões internas. Todos os sunitas partilham da mesma doutrina, com diferenças apenas de caráter legislativo ou ritualístico a depender da escola.

2 – Os descendentes de Sheikh Muhammad, que adotaram o sobrenome de Al ash-Sheikh (Casa do Sheikh), exerceram um papel central na propagação do wahhabismo e no expansionismo saudita. Na Arábia Saudita moderna ainda figuram, depois da Casa Saud, como uma importante família no governo do reino. Entre os seus membros atuais estão Abdul-Aziz ibn Abdullah Al ash-Sheikh, Grande Mufti da Arábia Saudita, Saleh bin Abdul-Aziz Al ash-Sheikh, Ministro de Assuntos Islâmicos, e Abdullah ibn Muhammad Al ash-Sheikh, presidente da Assembleia Consultativa.

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A conversão dos muçulmanos na Espanha reconquistada: Francisco Jiménez de Cisneros X Hernando de Talavera

ColagensA rica história da Espanha foi formada através do encontro entre povos, culturas e religiões. Desde a conversão do rei visigodo Recaredo I, abdicando do arianismo e ingressando na fé católica, a península ibérica, agora unificada religiosamente, cresceu em importância no mundo cristão, especialmente aos olhos de Roma. Ainda não tendo os graves problemas doutrinais do reino dos francos ou das colônias itálicas nos Balcãs, os reinos da Espanha enfrentaram a maior derrota da cristandade quando o domínio muçulmano foi consolidado. Entretanto, através das lutas da Reconquista, com a extensão das possessões católicas pelas vastas regiões ocupadas pelos mouros, os ibéricos definiram a sua própria história de modo inigualável. Todavia, o que se destaca nesse processo de dominação e expulsão das populações islâmicas é a dualidade entre duas propostas de ação. De um lado se encontrava Hernando de Talavera, Arcebispo de Granada e então confessor da Rainha Isabel I, defensor de um processo de evangelização encabeçado por missionários conhecedores da língua e cultura árabes e coroado com conversões espontâneas. Na outra margem estava o Cardeal Francisco Jiménez de Cisneros, Arcebispo de Toledo e Primaz da Espanha, árduo adepto de uma solução mais radical para o problema dos mouros, isto é, a conversão forçada ao cristianismo.

O Califado Omíada na Espanha atingiu um alto nível de esplendor intelectual, artístico e cultural. Entretanto, tamanha produção só ocorreu com o fim do seu projeto expansionista. Na Batalha de Poitiers Carlos Martel destruiu o anseio muçulmano de ultrapassar os Pirineus, visando a conquista do reino dos francos. Dominando o Oriente Médio estava a dinastia abássida, responsável pelo destronamento dos omíadas agora exilados na península ibérica. Em meio ao ócio de uma vida não mais militarizada, os muçulmanos conseguiram elevar o nível da sua produção intelectual e artística, tornando Al-Andalus num farol de beleza e sabedoria para todo o mundo.

A expulsão dos mouriscos, ocorrida em 1609 sob a ordem de Felipe III da Espanha, descendente da Rainha Isabel I, foi o evento culminante de um longo processo iniciado pelos Reis Católicos para exterminar toda a influência cultural, religiosa e étnica dos antigos dominadores muçulmanos. Os mouros que não fugiram para o norte da África quando da queda do seu último bastião, o Reino de Granada, foram obrigados à conversão em 1502 após a vitória de Jiménez de Cisneros com o seu rápido processo de cristianização da península. Contudo, a adesão ao cristianismo não era suficiente. A expulsão, portanto, tinha um claro caráter étnico, já que os mouriscos – mouros convertidos – eram vistos como o grande infortúnio da nação. Depois de anos de atrito entre as autoridades espanholas e os neo-cristãos, como o último ato, quase como uma desesperada limpeza étnica, todos os mouriscos foram conduzidos aos portos marítimos e embarcados para o Marrocos.

A expulsão dos mouriscos, contudo, não carregou a mesma dramaticidade da expulsão dos judeus ocorrida em 1492. Oito anos após a saída dos israelitas os muçulmanos espanhóis são obrigados à conversão. Entretanto, o que é ignorado é a complexa discussão, com profundos embasamentos teológicos, travada dentro da coroa da Espanha, entre Hernando de Talavera e Jiménez Cisneros. O Arcebispo de Granada, talvez por influência de eruditos religiosos, como Pedro, o Venerável, defendia um processo de conversão que fosse autêntico e que estivesse pautado na explanação da verdade e na conquista para Cristo. Séculos antes o Abade de Cluny, Pedro, realizou uma viagem até a Espanha muçulmana, que então vivia o apogeu do seu domínio, e após o aprendizado junto aos mestres islâmicos, realizou a primeira tradução do Corão para o latim. Para ele os muçulmanos deveriam ser atraídos ao cristianismo “não como nosso povo com frequência faz, pelas armas, não pela força, mas pela razão, não pelo ódio, mas pelo amor”. Entretanto, esse método, adotado por Talavera, era lento e pouco eficiente aos olhos de uma corte que via os mouros e seus descendentes como manifestações crônicas de uma Espanha doente.

Quando os Reis Católicos visitaram Granada pela primeira vez desde a vitória de 1492 encontraram uma cidade cristã, rica em igrejas e em manifestações religiosas, onde os sinos, tão perseguidos pelos muçulmanos, repicavam livremente. Entretanto, também se depararam com uma cidade onde as mesquitas perduravam e enchiam todas as sextas-feiras. Granada era até então uma típica localidade católica onde os não-cristãos tinham plena liberdade religiosa. Contudo, a contínua presença da fé islâmica, que incomodava os Reis Católicos, fortaleceu a posição do Arcebispo de Toledo, Jiménez de Cisneros. Os sacerdotes e os pregadores do Primaz da Espanha tomariam a cidade e apressariam o processo de conversão dos mouros. Pouco tempo após o seu novo encargo, o prelado espanhol influenciou a elaboração do edito que, em 1502, definiu que todos os muçulmanos deveriam escolher entre o batismo e o exílio no norte da África. Dentro da estruturação lógica do argumento proposto, não havia o enquadramento da conversão forçada, já que tinha como alternativa a partida para o Marrocos. Na perspectiva de Cisneros a rápida “cristianização” dos mouros facilitaria o trabalho de evangelização. Obviamente há neste raciocínio uma total inversão da teologia sacramental católica quando se trata do batismo de adultos com uma consciência formada e livre. Cisneros transferiu a teologia batismal de crianças como pressuposto teológico do seu projeto e, ademais, ao conceber o muçulmano como intrinsecamente selvagem diminuía o papel da consciência na sua própria composição antropológica.

A grande dificuldade dos cristãos ibéricos não estava tão vinculada ao problema religioso. Havia, de modo muito natural para a época, a desconfiança diante do desconhecido. Judeus, cristãos e muçulmanos desenvolviam lendas e mitos que buscavam demonizar as outras crenças e, ademais, concebiam o outro como selvagem e bárbaro. Com a conversão forçada de judeus e muçulmanos, na busca pela unidade territorial, surgiu uma eterna inseguridade sobre a sinceridade da fé cristã professada pelos cristãos-novos e pelos mouriscos. Entretanto, mais do que o temor frente à honestidade religiosa, existia uma forte aversão ao fator cultural. O combate sistemático da coroa espanhola  à cultura judaica e principalmente moura exemplificava a incapacidade do cristão da época de conceber um cristianismo ibérico não fosse culturalmente ibérico.

Ser católico espanhol era, necessariamente, se incluir dentro do espectro lícito, isto é, as diversas facetas culturais que compunham a nação, desde catalã até galega. A busca pela destruição das marcas árabes na vida dos convertidos e a sua consequente castelhanização eram as formas encontradas de exorcizar os fantasmas do passado. Para que a transformação fosse mais aguda a coroa endossou a destruição da identidade mourisca: o idioma árabe foi proibido e livros nesta língua foram queimados, trajes típicos foram declarados ilegais e até mesmo os casamentos entre mouriscos deveriam ser celebrados de portas abertas para que não se duvidasse da ocorrência de uma cerimônia cristã. Ademais, os mouros convertidos estavam proibidos de portar armas, ainda que fosse uma faca doméstica – que deveria ter as pontas arredondadas. A crença prática era de que a “mancha” étnica triunfava diante da graça batismal, uma concepção extremamente herética para a doutrina católica.

Havia na época um apreço muito grande pela reflexão a respeito da salvação dos não-cristãos, discussão aprimorada com o descobrimento da América e dos seus povos nativos desconhecedores da Revelação. Para o Cardeal Tomás Caetano, infiéis como os muçulmanos estavam sob o domínio cristão, enquanto os indígenas americanos estavam livres da jurisdição da Igreja. Esse tipo de raciocínio possibilitou o incremento da ação da Inquisição contra os mouriscos. Contudo, a situação da Igreja na Espanha era muito complexa. A instituição eclesiástica era usada como instrumento do estado. Ademais, num curto espaço de tempo reis espanhóis, como Carlos V e Felipe II, restringiram os poderes do papado na península ibérica. O confronto foi agravado com a invasão de Roma pelas tropas de Carlos V e o consequente saqueamento da Cidade Eterna. Felipe II, ainda sendo um fiel defensor dos anseios da Igreja na Europa, mostrou-se na Espanha um ardoroso protetor dos interesses do monarca no campo religioso. A Santa Sé, portanto, não apoiou a conversão forçada das massas, que ocorreu, assim, à revelia da autoridade máxima da fé católica.

O choque de Talavera com Cisneros pode ser concebido, portanto, como a luta entra um propósito sincero de conversão e o uso político da religião para fins obscuros. O Arcebispo de Granada, grande erudito que dominava perfeitamente o idioma árabe, por mais ineficiente que parecesse aos olhos de uma coroa ansiosa pelo fim da presença islâmica na península, não usava de meios violentos, mas através da persuasão racional e do testemunho amoroso apresentava o cristianismo aos mouros. Já o Arcebispo de Toledo, com a conversão forçada dos mouros granadinos e em seguida de todos os islâmicos em Castela, exterminou, ao menos nominalmente, o islã do reino cristão, mas não conseguiu transformar os mouriscos em verdadeiros católicos por mais que sacerdotes e monges entrassem em grande número em suas vilas e bairros. Com a ineficiência da conversão começou a se fortalecer a tese de que a cultura moura, ou até mesmo a raça árabe, era a grande responsável pela dificuldade dos convertidos em abraçar verdadeiramente o cristianismo. Iniciou-se um processo sistemático de destruição cultural e de controle sobre a vida dos mouriscos.

Os sucessores de Cisneros em suas teses continuaram com a busca pela cristianização dos mouros já nominalmente cristãos. Esta tensão criou tamanha desconfiança sobre a sinceridade da fé que até mesmo os que viviam honestamente a nova crença eram vistos com precaução. Incapazes de tornar todos os descendentes dos mouros em verdadeiros católicos e impossibilitados de destruir completamente os resquícios da cultura árabe, a coroa espanhola resolveu expulsá-los da península ibérica, enviando-os para o Marrocos, no dia 9 de abril de 1609, sob a ordem de Felipe III da Espanha, como já havia ocorrido com os judeus séculos antes.

Desde a conversão em 1502 até a expulsão em 1609 um século foi atravessado. O método de Cisneros se mostrou um grande fracasso. Poucos mouros adotavam sinceramente a fé cristã e ainda mesmo aqueles que o faziam não abriam mão de sua rica cultura. Começa-se o segundo processo, o de substituição da cultura árabe pela castelhana, o que intensificou a revolta mourisca contra a coroa. Com a tensão no sul do reino se tornando cada vez mais complexa e com o crescente desenvolvimento de teses que defendiam a ideia de “mancha étnica” indelével, houve-se por bem banir todos os mouriscos da Espanha.

Certamente Hernando de Talavera, com seu método orgânico de conversão, ainda que não atingisse a totalidade da população moura, geraria conversões sinceras que serviriam como testemunhos profundos da vida cristã junto aos muçulmanos. A dinâmica história de Al-Andalus e da Reconquista deixou como legado uma rico patrimônio e a inevitável assimilação entre povos tão diversos. Por mais que a coroa fosse contrária ao intercâmbio de culturas, e de fato se esforçando para evitá-lo ao máximo, a Espanha foi capaz de absorver marcas profundas das tradições mouras e adaptá-las à cosmovisão cristã. Este processo, em certa medida similar ao ocorrido em Portugal, exerceu uma influência no ultramar, nas facetas estéticas e comportamentais de origem moura entre os povos das colônias. A expulsão dos mouriscos não foi capaz de enterrar a força da cultura que produziram na península ibérica.

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A ascensão do ISIL e a atual crise do Oriente Médio

isis-controlled-land-iraq-syria-mapO presente cenário no Oriente Médio tem gerado confusão entre muitos ocidentais. É um número tão grande de facções, divisões e seitas que a imagem fica ainda mais turva. Aproveitando que algumas pessoas pediram esclarecimentos, vou tentar ajudar no entendimento da situação atual, que atingiu o seu ápice com a proclamação do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (ISIL)*

O ISIL tem um duplo contexto. Surge primeiramente da união de forças fundamentalistas no Iraque, que combatiam o governo estabelecido em Bagdá, os curdos ao norte e os xiitas ao sul.  Com o início da guerra civil na Síria, as células radicais se uniram ao ISIL, ampliando a influência e o poderia do grupo. Contudo, antes mesmo de falar do terrorismo moderno, é necessário retroceder alguns séculos, até a península arábica do séc. XVIII. Grande parte do território da península estava livre da influência otomana. Os turcos dominavam a parte oeste, sendo os senhores das cidades sagradas de Mecca e Medina. Nesse contexto surge Muhammad bin Abd al Wahhab (1703–1792) . Com vocação de reformador, sunita da escola hambali de jurisprudência  (o sunismo tem quatro grandes escolas de jurisprudência (madhhab), que seriam como modos distintos de aplicações da lei islâmica) ele defendia que o islamismo havia sido corrompido pelos otomanos.  Ainda com forte oposição do clero sunita, al Wahhab conseguiu angariar aliados, em especial o apoio de Muhammad ibn Saud. Dessa união surge, portanto, a moderna Arábia Saudita.

O wahabismo, como viria a ser chamado, também autoproclamado salafismo – salaf é o nome dado à primeira geração de sahaba, os companheiros de Muhammad, os que viveram o islamismo mais puro – tornou-se numa máquina de “takfir”, ato de julgamento da credulidade alheia, mediante a afirmação de que um muçulmano é “kafir”, infiel. Além disso, com uma leitura completamente anacrônica do Corão e da Tradição (Sunnah) iniciou uma sistemática destruição da identidade islâmica, seja com a implosão de mesquitas milenares, como através do combate à filosofia e defesa da despersonalização da mulher etc. O wahabismo se desenvolve e é exportado para diversos outros países, graças aos petrodólares sauditas. Surgem, portanto, os diversos grupos terroristas, como a Al-Qaeda.

O ISIL é um filho legítimo desse radicalismo islâmico. Contudo, o seu grande diferencial é conseguir congregar diversos grupos wahabitas ressentidos, muitos “combatentes” cansados com a energia gasta contra o inimigo ocidental enquanto os seus países eram governados por “incrédulos”. É em tal contexto que se inicia a almejada reconstituição do califado. Vale destacar que o título de Califa – Khalifah (Não sei a razão da língua portuguesa ter sonorizado o “C” em palavras árabes/persas “Kh”, já que estas soam como “R”. Em espanhol é mantido o som original; “Jomeini”, “Jalifa” etc) tem uma conotação espiritual-política: Khalifat Rasul Allah, o representante do Mensageiro de Deus (aqui entra uma eterna polêmica com os xiitas, já que para eles os verdadeiros Califas/Imames seriam os membros da Ahl al-Bayt, a família do profeta). Contudo, desde o fim do Califado Rashidun, isto é, dos 4 companheiros de Muhammad, o título de “Califa” foi perdendo sua conotação espiritual e se politizando de modo sistemático. Os omíadas são os verdadeiros fundadores do Império Islâmico propriamente dito, dando um status e uma pompa que não havia antes, e tornando “Califa” em sinônimo de “Rei”. Vale destacar que, curiosamente, o fundador dessa dinastia, Muawiyah I, era filho de Abu Sufyan, o maior perseguidor de Maomé e que só se converteu ao islã, juntamente com a sua prole, depois que Mecca foi tomada pelos muçulmanos. 

Com o fim do Califado Abássida, o título praticamente se perde. Os muçulmanos agora se encontram fragmentados em diversos reinos e ninguém proclama ter a autoridade central. Contudo, a busca pela unidade da Ummah  – comunidade islâmica – sempre foi um ponto fundamental dos ensinamentos de Muhammad. De acordo com Sahih Muslim, num hadith – dito do Profeta do Islam – por ele compilado, Maomé teria dito:

“Os muçulmanos estão proibidos de ter dois emires, já que isso faria com tivessem diferenças em seus assuntos e conceitos. A sua unidade seria quebrada e disputas iriam eclodir entre eles. A Sunnah, então, seria abandonada, a bida’a (heresia) se espalharia e a fitna (tentação) iria crescer, o que é do interesse de ninguém”.

Assim, quando o ISIL proclama o Califado com a pureza do período Rashidun está apenas tentado reconstituir o projeto unitário islâmico, agora degenerado dentro do anacronismo fundamentalista dos radicais. O pretenso Califa, Abu Bakr al-Baghdadi, também se diz descendente de Muhammad, já que ser membro da tribo coraixita é pressuposto essencial para a detenção deste título.  Entretanto, ao mesmo tempo em que o ISIL enfrenta os seus inimigos externos – ocidentais em geral e incrédulos em geral (especialmente cristãos e xiitas) – sofre com a dissolução da coesão entre os wahabbitas. A Al-Qaeda, primeiramente aliada, já retirou o seu apoio ao ISIL. Este, contudo, é o maior combatente no Iraque atual e estende sua influência até os limites da Jordânia, também participando ativamente na guerra civil síria para a deposição do regime de Bashar al-Assad.

Dentro da tal cenário, quais forças seriam capazes de barrar o avanço do ISIL? O Irã é o ator decisivo no cenário atual. As “fronteiras” do “califado” começam nos territórios xiitas do Iraque, onde os seus adeptos também pegaram em armas para a defesa dos seus lugares sagrados e de sua gente, e que encontram em Muqtada al-Sadr e no Ayatollah Ali al-Sistani os seus grandes nomes. Este último, inclusive, um crítico dos xiitas radicais que se opõem ao governo estabelecido. No Líbano, no outro extremo, os xiitas – aliados tradicionais dos cristãos no país, principalmente junto ao Hezbollah – também atrapalhariam o aumento da influência para além da Síria. O perigo do “califado” atingir a pacífica Jordânia e o multireligioso Líbano é iminente, o que complicaria, e muito, um cenário que já é caótico. A inteligência persa pode congregar essas diversas frentes xiitas, unidas aos cristãos, criando um forte grupo de resistência. É importante lembrar que o Irã é o estado islâmico onde os cristãos tradicionais – católicos, assírios, armênios – têm maior liberdade religiosa. Ademais, a sua abertura ao Ocidente, somada ao reconhecimento do seu papel estratégico na região, até mesmo como espectador distante da situação presente, o faz uma personagem decisiva no cenário estabelecido. 

*Alguns chamam de “Estado Islâmico do Iraque e da Síria” (ISIS), mas o termo “Levante” é mais fiel à versão original (al-Sham), englobando os territórios atuais da Síria, da Jordânia, da Palestina/Israel, do Líbano e partes da Turquia. 

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A ânsia destrutiva do wahabismo

Desde o séc. XVIII, quando  Muhammad ibn Abd al-Wahhab, fundador da seita wahabita, aliou-se com Muhammad bin Saud, no acordo de Diriyah, que “saudismo” se tornou em sinônimo de “wahabismo” e, portanto, de fundamentalismo. Com a queda do Império Otomano e a criação do Sultanato do Nejd, em 1921, a Casa Saud iniciou o seu expansionismo no território da península, tendo como pretensão a união de todos os árabes sob a égide do “verdadeiro islã”. Em 1925 Abdul Aziz Ibn Saud invade e submete o Reino do Hijaz, proclamado em 1916 e encabeçado por um soberano avesso ao fundamentalismo. A Inglaterra, que gerenciava os movimentos de libertação no Oriente Médio, nada fez para salvar a península do wahabismo de Ryad. Em 1932 nasce, oficialmente, o Reino da Arábia Saudita. Com a independência do Catar, em 1971, este se torna no segundo país oficialmente wahabita do mundo.

A Arábia Saudita e mais recentemente o Catar são dois exportadores do fundamentalismo islâmico. A interpretação dada pelo wahabismo ao islã foi sistematicamente influenciando países pobres, que necessitavam do apoio financeiro oriundo dos petrodólares da península. Ainda gozando dos benefícios da globalização são arautos do anacronismo. Ryad e Doha conseguiram criar um sistema autocrático onde as minorias religiosas são lançadas na ilegalidade e as mulheres são cidadãos de segunda classe ao mesmo tempo em que forjam uma sociedade materialmente rica e moderna. As relações entre sauditas e o Talebã, no Afeganistão, eram estreitas, assim como o interesse recente do Catar em apoiar financeiramente ao Hamas. Ademais, não apenas os não-muçulmanos são vítimas do wahabismo. Na península arábica, com a consolidação do poder saudita, o xiismo foi perseguido e tornado ilegal. A visão fundamentalista da tradição ainda estimulou a destruição de diversos lugares sagrados, como o cemitério de Al-Baqi, em Medina, e Mesquitas que abrigavam túmulos de familiares e companheiros de Muhammad.

As "modernas" capitais wahabitas: Ryad e Doha.

As “modernas” capitais wahabitas: Ryad e Doha

O cemitério de Al-Baqi, em Medina, onde repousavam diversos familiares de Muhammad (venerados pelos xiitas) e outros tantos dos seus companheiros

O cemitério de Al-Baqi, em Medina, onde repousavam diversos familiares de Muhammad (venerados pelos xiitas) e outros tantos dos seus companheiros

E o mesmo cemitério após a sua destruição pelos sauditas em 1925

E o mesmo cemitério após a sua destruição pelos sauditas em 1925

Antes do advento do estado saudita, os muçulmanos da península praticavam diversos atos de devoção comuns em grande parte do mundo islâmico. Celebrações em honra a Muhammad, sua família e companheiros, visitação de templos, tumbas e lugares sagrados conectados com a história nascente do islã. Contudo, os ulamas wahabitas consideravam manifestações de superstição e heresia que necessitavam de purificação.

A medida mais eficiente adotada foi o fim dos destinos da piedade. Além da destruição do cemitério de Al-Baqi, em 1925, os sauditas demoliram as tumbas dos “mártires da batalha de Uhud”, a mesquita de Fatimah Al-Zahra, onde repousava a filha de Muhammad, e diversos outros túmulos de familiares e companheiros de Maomé. Pretendiam destruir o próprio túmulo de Muhammad, mas depois de críticas preferiam apenas despojá-lo de todos os ornamentos. Em Meca fizeram o mesmo, dinamitando tudo o que havia no cemitério Al-Ma’ala, inclusive a tumba da primeira esposa do profeta do islã, Khadija bint Khuwaylia. Ademais, nos primórdios do expansionismo, quando os sauditas capturaram as cidades sagradas xiitas de Karbala e Najaf, no Iraque, massacraram a população local e derrubaram a mesquita construída sobre o túmulo de Hussein ibn Ali, neto de Maomé e terceiro imam do xiismo.

O complexo destrutivo se mantém até os dias de hoje. Como parte do projeto de expansão da Al-Majisd al-Nabawi, em Medina, os sauditas pretendem destruir três outras mesquitas sagradas. Em Meca, para a construção de torres com hotéis, apartamentos e shoppings, dinamitaram diversos lugares santos e históricos. A casa de Khadija foi demolida para a construção de lavatórios públicos, a casa de Abu Bakr, companheiro de Muhammad e primeiro Califa, deu espaço para o Hilton e a Mesquita de abu-Qubais foi demolida para a construção do palácio real.

Para a construção deste monumental complexo diversos lugares sagrados e históricos foram destruídos

Para a construção deste monumental complexo diversos lugares sagrados e históricos foram destruídos

A recente destruição de imagens milenares da civilização assíria pelo ISIL, no Iraque, assim como a demolição do buda de Bamiyan no Afeganistão, pelo Talebã, apenas reflete o anacronismo do fundamentalismo islâmico iniciado na Arábia Saudita. Hoje, em Meca, só restam 20 estruturas que remontam aos tempos de Muhammad. Se nem mesmo a própria – e verdadeira – tradição é protegida, quanto mais a riqueza histórica e civilizacional de outros povos e crenças.

 

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O sionismo revisionista e a tomada da Palestina

Poster do Irgun, antecessor ideológico do Likud, defendendo a criação de Israel em todo o território da Palestina e da Jordânia.

Poster do Irgun, antecessor ideológico do Likud, defendendo a criação de Israel em todo o território da Palestina e da Jordânia.

O sionismo revisionista sempre foi um dos maiores obstáculos para a solução do conflito entre Israel e a Palestina. Em suas origens está contida uma forte oposição à presença árabe na região e a defesa da soberania sobre um imenso território. O que começou com um grupo paramilitar, o Irgun, responsável por ataques em povoados palestinos e em quartéis ingleses, tornou-se no maior partido israelense, o Likud. O contexto histórico obrigou a reformulação de alguns axiomas ideológicos, como a defesa da incorporação da Jordânia às fronteiras de Israel. Contudo, ainda hoje é possível ver marcas características do sionismo revisionista, como o estabelecimento de assentamentos judaicos na Cisjordânia e o sistemático assalto da Jerusalém Oriental.

O sionismo revisionista, criado por Ze’ev Jabotinsky (1880 – 1940), surgiu como uma resposta ao sionismo socialista que controlava, em grande medida, a Organização Sionista Mundial. Seguindo os passos de Theodor Herzl (1860 – 1904), fundador do sionismo moderno, Jabotinsky  adotava uma forte posição nacionalista e conservadora, ainda que avesso ao discurso religioso.  As duas bandeiras ideológicas que imperavam no movimento pela criação de Israel eram caracterizados pelo seu radical secularismo e adesão ao ateísmo judaico. Contudo, o sionismo revisionista se diferenciava pela sua intransigência étnica e pelos seus arroubos geográficos.

O “maximalismo territorial” era a marca mais distintiva da ideologia criada por Jabotinsky. A “Eretz Yisrael” deveria abarcar todos os seus limites históricos. Consequentemente isto refletia em dois ativismos: a não aceitação da criação do Estado palestino e a defesa da incorporação da Transjordânia (atual Jordânia) às fronteiras israelenses. Após a implosão do Império Otomano, Faiçal, filho de Hussein bin Ali, líder da Grande Revolta Árabe e criador do Reino do Hijaz em 1916, proclamou-se rei da Grande Síria. Com a sua derrota diante dos franceses, quatro meses depois da sua coroação, todo o território foi tomado pelas potências europeias. Como parte da Conferência do Cairo, em 1921, foi-se acordada a criação do Reino do Iraque, governado por Faiçal, e do Emirato da Transjordânia, governado Abdullah, seu irmão. A nova realidade política regional afetou severamente as pretensões do sionismo revisionista.

Dentro do processo de mudanças de posições, destaca-se o enfraquecimento da defesa  de um Israel “dos dois lados da margem do Jordão”. Com o reconhecimento da legitimidade do Reino Hachemita da Jordânia, na década de 70, e com o acordo de paz assinado com o Rei Hussein I, em 1994, apoiado pelo Likud, se sepultava definitivamente as pretensões expansionistas do sionismo revisionista. Contudo, no que se referia à integridade dos limites da Israel atual, com a tomada da Cisjordânia e da Faixa de Gaza na guerra de 1967, o sionismo revisionista concentrou todas as suas aspirações ideológicas.  Menachem Begin, sexto Primeiro-Ministro de Israel e fundador do Likud, afirmava que estes territórios faziam parte do “patrimônio eterno dos [seus] ancestrais” e que nunca “deixaria nenhuma parte da Judeia, da Samaria ou da Faixa de Gaza”. Como parte desta política, iniciou-se a criação de assentamentos judaicos nas regiões ocupadas.

O Likud, maior partido israelense e que compôs a maioria dos governos desde 1977, surge, na década de 70, através da união de diversas frentes do sionismo revisionista. Tinha, contudo, como grande base ideológica o Herut, partido político criado em 1948 e sucessor do Irgun. A “Organização Militar Nacional na Terra de Israel” (Irgun) nasceu como um braço armado para o exercício de força. Com ataques aos povoados palestinos e aos sinais da presença inglesa, buscava pressionar as potências europeias pela criação do Estado de Israel.  Com a sua transformação histórica, chegando até o atual Likud, mudanças ideológicas naturalmente ocorreram. Todavia, se levamos em consideração a sua política de assentamentos, ainda mais quando comparada com o Partido Trabalhista, é notório como as pretensões sobre o domínio de toda a “Eretz Yisrael” se mantêm impávidas.

Em ambos os lados existem discursos de ódio que só incrementam a onda de violência. Contudo, enquanto o fundamentalismo islâmico é explicitamente radical e facilmente condenável, o sionismo revisionista se esconde por detrás de uma retórica democrática. Desde o êxodo forçado de palestinos, deixando suas casas, vilas e cidades para os judeus que chegavam da Europa, até a criação de assentamentos nos territórios ocupados, o que existe é uma sistemática tomada do espaço vital da Palestina. Grande parte da população atual de Gaza e da Cisjordânia é composta de refugiados que perderem seus lares e agora estão privados de direitos básicos, como a mobilidade. Para que o diálogo avance e a paz se torne mais concreta no futuro, é necessário abrir mão de posições ideológicas e fundamentalistas, seja o terrorismo islâmico com os seus homens bombas ou o sionismo revisionista com os seus homens de terno.

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A perseguição aos cristãos e o direito dos dhimmis

10358126_10152264236216173_8093808780040159359_nO avanço do ISIL, o Califado Islâmico da Síria e do Levante, tem deixado um rastro de morte. Entre as maiores vítimas do seu fundamentalismo estão as minorias religiosas: alauítas, xiitas e cristãos. Contudo, no caso dos “nazarenos” a situação toma feições ainda mais sangrentas. Politicamente sozinhos, sem o apoio de forças regionais, como o Baath (alauítas) ou Irã (xiitas),  os cristãos são alvos fáceis. Por mais que duras críticas tenham sido feitas de dentro da comunidade islâmica, como as posições do Ayatollah Sistani, no Iraque, e de Hassan Nasrallah, líder do Hezbollah, no Líbano, até então nada conseguiu retardar o incremento da violência aos seguidores de Jesus Cristo. Contudo, na raiz do problema se encontra a concepção da dignidade do homem no islã e dos direitos inerentes à sua condição enquanto tal.

Uma noção “imanente” do direito, como desenvolvida no cristianismo, desde os Padres da Igreja, passando por Santo Tomás, chegando em Francisco de Vitória e em Hugo Grócio, reflete o modo como a Igreja entendia a “imanência” como o lugar privilegiado onde se revelava a transcendência. O homem é sujeito de direitos porque ele é homem, criado à imagem e semelhança do seu Criador, e não porque esses direitos são impostos do exterior. Contudo, no islamismo o homem, por si, não é um sujeito de direitos, mas os obtém na medida em que faz parte da comunidade islâmica. A sua dignidade é reflexo, portanto, da sua condição de crente. A fidelidade às prescrições de Deus, contidas no Corão e na Sunna, é o que concede a ele a dignidade. Assim, passa da condição de escravo (‘abd) para a de fiel (mu’min).

Isso reflete, de modo inevitável, no tratamento às minorias religiosas dentro do mundo islâmico. Se o direito do homem é dependente da sua condição de fiel, os não-muçulmanos seriam sujeitos essencialmente deficitários de dignidade? É evidente que dentro da Ummah uma igualdade absoluta de direitos e de deveres é completamente inconcebível. Surge então uma diferença de status pessoal que rege as relações entre os crentes e os não-crentes, além de garantir uma proteção contratual (dhimma) aos “povos do livro”; os judeus, os cristãos e os sabeus. Com a expansão do império islâmico outras religiões, como budismo, hinduísmo, foram admitidas como sendo  ′Ahl al-Kitāb.

Assim, aos não-muçulmanos era impossível ter a plenitude do direito, status particular daqueles que habitavam na “cidade do Islã” (Dar al-Islam). Contudo, no lado oposto se encontrava a “cidade da guerra”, (Dar al-Harb), os países onde o islamismo ainda não era religião majoritária. As relações com os estados não-muçulmanos estavam regidas pela concepção de jihad, no sentido de esforço pela expansão da fé. Com o enfraquecimento do império islâmico e sua consequente fragmentação, um novo conceito é cunhado, “cidade do pacto” (Dar al-Ahd), fazendo referência aos países com os quais se tinha criado alianças de não-agressão. Como membros da “Dar al-Harb” no seio da “Dar al-Islam”, os não-muçulmanos eram cidadãos de segunda classe. Ainda pagando taxas (jizya) pela liberdade – relativa – de culto, aos “dhimmis” era proibida qualquer manifestação de fé: orações em voz alta eram ilegais, assim como o badalar dos sinos ou o uso do shofar. Vale destacar, contudo, que os não-muçulmanos constituíam um tribunal paralelo, podendo reger suas comunidades através das suas próprias leis.

Todavia, deve ser recordado que dentro da história do islamismo, e levando em consideração o contexto temporal, houve momentos onde a interação entre os muçulmanos e os dhimmis transcorreu com muita normalidade, inclusive com a relativização das proibições. Existem relatos eloquentes da construção de comunidades pluralistas na Andalusia, na Pérsia, na Índia e no Império Otomano. Ademais, desde o séc. XIX, com a realização de mudanças constitucionais de influência europeia em Istambul, o status dos dhimmis foi abolido. As taxas foram sendo sistematicamente retiradas, até a adoção de uma estrutura tributária moderna e universal. Com o edito de 1856 (Islâhat Fermânı), parte do período de reformas estruturais no império entre 1839 – 1876, os não-muçulmanos ganharam um status civil, inclusive com a melhoria das relações dos sultões com a igreja (sacerdotes, bispos e patriarcas passaram a receber um salário do estado).

No mundo contemporâneo existem exemplos positivos da relação entre cristãos e muçulmanos, como o Líbano e a Síria. No Irã, um caso muito singular, ainda que a liberdade religiosa não seja perfeita, a liberdade de culto é a melhor exercida dentro de um “estado islâmico”: aos cristãos tradicionais (católicos, ortodoxos, assírios e armênios) é permitida a construção de igrejas e as manifestações de fé. Pela constituição o parlamento também deve ter representantes das minorias religiosas legais (cristãos, judeus e zoroastristas). A longa presença cristã no Irã, tanto através dos armênios que lá estão há milênios, como também pela chegada dos católicos, inclusive de rito latino (dominicanos), no séc. XVI, favoreceu a completa assimilação cultural. Contudo, o que hoje é visto na Síria e principalmente no Iraque, é uma barbaridade perpetrada em defesa de anacronismos já superados, seja pela história, como também pela hermenêutica.

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