O fraco e desesperado Hamas

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O Hamas não é uma unanimidade no mundo islâmico. A sua posição foi alcançada com o enfraquecimento do Fatah e a crença de que as suas políticas poderiam angariar algum tipo de desenvolvimento para os territórios palestinos. Grande parte da sua glória passada era reflexo do apoio recebido por outros países muçulmanos, em especial o Irã. Contudo, o Hamas hoje definha, seja pelo enfraquecimento do suporte interno, como também pelo perda de alianças vitais para a sua sobrevivência.

A aliança entre o Irã e o Hezbollah parte de um mesmo pressuposto político e religioso. Assim como no passado os Xás da Pérsia importaram sábios xiitas libaneses para difundir esse ramo do islã no seu reino, o Irã contemporâneo auxilia os seus irmãos na fé com ajuda financeira e apoio logístico. Ambos partem do mesmo pressuposto revolucionário, que tem no evento de Karballa a fonte de toda a sua mística – onde o Imam Hussein, neto de Muhammad e Terceiro Imam do xiismo, foi violentamente assassinado pelo Califa.

Contudo, a relação com o Hamas é completamente distinta. O Hamas é sunita e tem em sua origem as marcas da Irmandade Muçulmana, do Egito. Com um discurso de sabor salafista, a IM adotou uma posição hostil em relação ao Irã. Entretanto, o país dos Ayatollahs sempre manteve o seu apoio ao Hamas acreditando no pan-islamismo e na liderança de Teerã nas causas de libertação. O cenário mudou completamente com a eclosão da guerra civil na Síria. Ainda não sendo um país xiita, a Síria sempre foi uma tradicional aliada do Hezbollah e do Irã. O país é governado pela família Assad, que professa o alauísmo, religião nascida de heresias vindas do xiismo.  De certo modo, isso possibilitou que a Síria se tornasse num oásis de liberdade religiosa.

Com o apoio dado pelo Hamas aos rebeldes na Síria – estes que massacravam igualmente a xiitas, alauítas e cristãos  – ocorre o rompimento formal entre o Irã e a organização palestina. O Hamas acreditava que o déficit deixado pela saída da ajuda iraniana seria suprido pela Irmandade Muçulmana, que então governava o Egito, e pelos países wahabitas, em especial o Catar, que vinha sistematicamente tomando o espaço da Arábia Saudita no que se refere ao financiamento de grupos fundamentalistas.  O rompimento do Hamas com o Irã também refletiu no seu rompimento com o Hezbollah.

O Irã cortou a milionária ajuda que enviava para Gaza e encerrou as relações oficiais com as lideranças do Hamas. A Irmandade Muçulmana foi desposta e outra fonte de auxílio também se extinguiu. Para agravar a crise da organização palestina, o novo governo egípcio, liderado pelo General Sisi, acusou o Hamas de apoiar a revolução no Egito em 2011 e participar do ataque que acarretou na morte de 12 oficiais em 2012. Como represália, o exército do país destruiu os túneis que ligavam o Sinai à Faixa de Gaza, isolando ainda mais o Hamas. O Catar, outra fonte de renda, também se distanciou por críticas ao apoio dado por Doha à Irmandade Muçulmana. Outro possível benfeitor, a Turquia de Erdogan, tomou uma atitude similar após críticas e conflitos internos.

O Hamas parece isolado, ainda que um esboço de um reatamento com o Irã esteja sendo estabelecido. Enquanto organização política, que cresceu graças ao desgaste do Fatah por anos de diplomacia infrutífera, mostrou-se completamente ineficiente. Ademais, a defesa que faz pelo estabelecimento de um Estado islâmico dentro das fronteiras históricas da Palestina é um completo atraso para a conquista da paz. As ações do seu braço armado, as Brigadas Izz ad-Din al-Qassam, parecem um grito de desespero diante da incapacidade de alcançar objetivos para a causa defendida. Conhecendo a superioridade bélica de Israel e reconhecendo o peso da comunidade internacional, os torpedos lançados pelo Hamas são mais mortíferos não pelo sangue derramado, mas pela sua eloquência:  reacendem a discussão nas mídias ocidentais  e colocam os holofotes sobre a Faixa de Gaza. Empoderam o agora fraco Hamas.

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