O sionismo revisionista e a tomada da Palestina

Poster do Irgun, antecessor ideológico do Likud, defendendo a criação de Israel em todo o território da Palestina e da Jordânia.

Poster do Irgun, antecessor ideológico do Likud, defendendo a criação de Israel em todo o território da Palestina e da Jordânia.

O sionismo revisionista sempre foi um dos maiores obstáculos para a solução do conflito entre Israel e a Palestina. Em suas origens está contida uma forte oposição à presença árabe na região e a defesa da soberania sobre um imenso território. O que começou com um grupo paramilitar, o Irgun, responsável por ataques em povoados palestinos e em quartéis ingleses, tornou-se no maior partido israelense, o Likud. O contexto histórico obrigou a reformulação de alguns axiomas ideológicos, como a defesa da incorporação da Jordânia às fronteiras de Israel. Contudo, ainda hoje é possível ver marcas características do sionismo revisionista, como o estabelecimento de assentamentos judaicos na Cisjordânia e o sistemático assalto da Jerusalém Oriental.

O sionismo revisionista, criado por Ze’ev Jabotinsky (1880 – 1940), surgiu como uma resposta ao sionismo socialista que controlava, em grande medida, a Organização Sionista Mundial. Seguindo os passos de Theodor Herzl (1860 – 1904), fundador do sionismo moderno, Jabotinsky  adotava uma forte posição nacionalista e conservadora, ainda que avesso ao discurso religioso.  As duas bandeiras ideológicas que imperavam no movimento pela criação de Israel eram caracterizados pelo seu radical secularismo e adesão ao ateísmo judaico. Contudo, o sionismo revisionista se diferenciava pela sua intransigência étnica e pelos seus arroubos geográficos.

O “maximalismo territorial” era a marca mais distintiva da ideologia criada por Jabotinsky. A “Eretz Yisrael” deveria abarcar todos os seus limites históricos. Consequentemente isto refletia em dois ativismos: a não aceitação da criação do Estado palestino e a defesa da incorporação da Transjordânia (atual Jordânia) às fronteiras israelenses. Após a implosão do Império Otomano, Faiçal, filho de Hussein bin Ali, líder da Grande Revolta Árabe e criador do Reino do Hijaz em 1916, proclamou-se rei da Grande Síria. Com a sua derrota diante dos franceses, quatro meses depois da sua coroação, todo o território foi tomado pelas potências europeias. Como parte da Conferência do Cairo, em 1921, foi-se acordada a criação do Reino do Iraque, governado por Faiçal, e do Emirato da Transjordânia, governado Abdullah, seu irmão. A nova realidade política regional afetou severamente as pretensões do sionismo revisionista.

Dentro do processo de mudanças de posições, destaca-se o enfraquecimento da defesa  de um Israel “dos dois lados da margem do Jordão”. Com o reconhecimento da legitimidade do Reino Hachemita da Jordânia, na década de 70, e com o acordo de paz assinado com o Rei Hussein I, em 1994, apoiado pelo Likud, se sepultava definitivamente as pretensões expansionistas do sionismo revisionista. Contudo, no que se referia à integridade dos limites da Israel atual, com a tomada da Cisjordânia e da Faixa de Gaza na guerra de 1967, o sionismo revisionista concentrou todas as suas aspirações ideológicas.  Menachem Begin, sexto Primeiro-Ministro de Israel e fundador do Likud, afirmava que estes territórios faziam parte do “patrimônio eterno dos [seus] ancestrais” e que nunca “deixaria nenhuma parte da Judeia, da Samaria ou da Faixa de Gaza”. Como parte desta política, iniciou-se a criação de assentamentos judaicos nas regiões ocupadas.

O Likud, maior partido israelense e que compôs a maioria dos governos desde 1977, surge, na década de 70, através da união de diversas frentes do sionismo revisionista. Tinha, contudo, como grande base ideológica o Herut, partido político criado em 1948 e sucessor do Irgun. A “Organização Militar Nacional na Terra de Israel” (Irgun) nasceu como um braço armado para o exercício de força. Com ataques aos povoados palestinos e aos sinais da presença inglesa, buscava pressionar as potências europeias pela criação do Estado de Israel.  Com a sua transformação histórica, chegando até o atual Likud, mudanças ideológicas naturalmente ocorreram. Todavia, se levamos em consideração a sua política de assentamentos, ainda mais quando comparada com o Partido Trabalhista, é notório como as pretensões sobre o domínio de toda a “Eretz Yisrael” se mantêm impávidas.

Em ambos os lados existem discursos de ódio que só incrementam a onda de violência. Contudo, enquanto o fundamentalismo islâmico é explicitamente radical e facilmente condenável, o sionismo revisionista se esconde por detrás de uma retórica democrática. Desde o êxodo forçado de palestinos, deixando suas casas, vilas e cidades para os judeus que chegavam da Europa, até a criação de assentamentos nos territórios ocupados, o que existe é uma sistemática tomada do espaço vital da Palestina. Grande parte da população atual de Gaza e da Cisjordânia é composta de refugiados que perderem seus lares e agora estão privados de direitos básicos, como a mobilidade. Para que o diálogo avance e a paz se torne mais concreta no futuro, é necessário abrir mão de posições ideológicas e fundamentalistas, seja o terrorismo islâmico com os seus homens bombas ou o sionismo revisionista com os seus homens de terno.

Anúncios
Esse post foi publicado em Atualidade, História, Política e marcado , . Guardar link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s